O guardador de rebanhos

ALBERTO CAEIRO (um granda prof de meditação 😆)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

II

When I look, I see clear as a sunflower.
I’m always walking the roads
Looking right and left,
And sometimes looking behind...
And what I see every second
Is something I’ve never seen before,
And I know how to do this very well...
I know how to have the essential astonishment
That a child would have if it could really see
It was being born when it was being born...
I feel myself being born in each moment,
In the eternal newness of the world...

I believe in the world like I believe in a marigold,
Because I see it. But I don’t think about it
Because to think is to not understand...
The world wasn’t made for us to think about
(To think is to be sick in the eyes)
But for us to see and agree with...

I don’t have a philosophy: I have senses...
If I talk about Nature, it’s not because I know what it is,
But because I love it, and that’s why I love it,
Because when you love you never know what you love,
Or why you love, or what love is...

Loving is eternal innocence,
And the only innocence is not thinking...

Tudo é movimento

Tudo é movimento.
Sinto a energia em mim a tentar-me despertar, a incitar-me a despertar.
Infelizmente os hábitos mentais bloqueiam essa energia. O ego boqueia essa energia, porque o ego pensa que tudo tem inicio nele, que tudo é a sua causa, porque ele quer ser a causa dessa energia.
Mas ela não tem causa egoica. A sua causa é muito mais subtil, ela é só fruto de todas as causas e de todas as circunstâncias: corpo, sentidos, ambiente. Não é somente egoica, e ego egoísta bloqueia o despertar, querendo ser ele a causa única da energia.

Que o lírio nasça no vosso coração, e o seu bálsamo se derrame nele, apaziguando a dor.

(Não sei porquê o lírio, mas foi o que me veio à mente durante a meditação.

do Bruto para o Subtil



Assim acontece na meditação,
do Bruto para o Subtil

para o Bruto novamente.



A vida não foi feita para nos satisfazer - Life doesn't exist to satisfy us



A vida não foi feita para nos satisfazer, ela é frustração enquanto houver apego. Porque tudo é volátil, fluido, “líquido”, impermanente.
A frustração é aquela impressão que fica no corpo e na mente, de insatisfação, quando um prazer termina, quando uma vontade não é satisfeita, quando nos estava a saber "mesmo bem" ficar na cama, quando o dia termina, quando a festa termina, quando nos despedimos, quando não temos, quando não nos dão, quando a comida é boa mas eventualmente acaba.
É óbvio que a vida é esta impertinencia, nada dura, nada é estático. Nada foi feito para nos satisfazer, pelo menos não da forma como achamos (eternamente).
Sendo assim, reluz a pergunta. Existe realmente alguma coisa a que nos apegar?
Não! Não existe nada. Nem mesmo o apego ou a ideia de…, Porque no limite da essência e do substrato das coisas, na sua desconstrução, e desagregação apenas existe o espaço.
E neste espaço nenhuma coisa é mais do que…, as coisas são só aquilo que são. A dor é só dor, a alegria é só alegria, as sensações são só sensações, e tudo isto é especial por isso. Quer seja a mágoa quer seja a alegria.
Nada é mais do que aquilo que é, pois o mais é só a ilusão da ideia que temos de nós mesmos.

-----

Life was not meant to satisfy us, it is frustration as long as attachment exists. Because everything is volatile, fluid, "liquid," impermanent.
Frustration is that impression that remains in the body and mind, of dissatisfaction, when a pleasure ends, when a will is not satisfied, when it was really good to stay in bed, when the day ends, when the party ends, when we say goodbye, when we do not have, when is not given to us, when the food is good but eventually ends.
It is obvious that life is this impermanence, nothing lasts, and nothing is static. Nothing was done to satisfy us, at least not in the way we think (eternally).
So, he shines the question. Is there really anything to hold on to?
No! Nothing. Not even the attachment or the idea of​​..., Because in the limit of the essence and on the substratum of things, in their deconstruction and disintegration, there is only space.
And in this space nothing is more than..., things are only what they are. The pain is only pain, the joy is only joy, the sensations are only sensations, and all this is special becouse of that. Whether it be grief or joy.
Nothing is more than what it is, because the “more” is only an illusion of the idea we have of ourselves.

Ópio do ego


Não me orgulho de nada nem em nada,
Tenho apenas alegria em tudo.
Pois tal como a religião é o opio do povo,
O orgulho é o ópio do ego.



Justificações para…














Arranjar razões, ou justificações para…, é um truque bem engenhoso da mente (aliás, é um apego ao controlo).

Isto acontece porque x, isto porque y, ou porque Deus, ou porque as leis, ou porque a lógica.

Não que isto seja errado, mau, ou completamente prejudicial, mas veiculado ao apego ou à insatisfação, pode desviar-nos da verdadeira razão, apenas servindo para criar mais ansiedade. E isto acontece principalmente quando transportamos a justificação para as facetas mais emocionais da vida. Porquê a morte? Porque se tem de morrer? Porquê a vida? Ou mesmo, porque é que ele me deixou? Porque me traiu? Porque agiu assim? etc. etc.

Às vezes, não vale mesmo a pena pensar nas razões, quaisquer que sejam, porque as coisas são o que são e a verdade já está implícita nelas. E a tentativa de justificação torna-se só uma forma de negação, raiva e ignorância.


Que assunto foi ensinado pelo Buddha?

Suponham que vos é perguntado,
“Que assunto foi ensinado pelo Buddha?”

A melhor forma de responder a isto é citando o próprio Buddha, “Saibam isto, ò Monges: Agora, como antes, eu apenas ensino dukkha (sofrimento, insatisfação) e a eliminação de dukkha.”

Quer esta resposta esteja de acordo ou não com aquilo que vocês terão pensado, por favor tomem nota. Poderemos responde-la de muitas outras formas, mas esta frase de Buddha resume de forma muito sucinta o seu ensinamento.

O Buddha apenas ensinou dukkha e a sua extinção. Isto torna irrelevante qualquer questão que não esteja diretamente relacionada com a eliminação de dukkha. Não considera questões como “Haverá renascimento depois da morte?”, ou “Como é que o renascimento se realiza?”. Isto pode ser ponderado depois.

Então, se um Ocidental apresentar esta questão, deveremos responder dizendo, “O Buddha ensinou nada mais que dukkha e a sua eliminação.”
Retirado do livro “Buddha-Dhamma for Students”, de Buddhadasa Bhikkhu.

Tradução Livre.